domingo, 5 de agosto de 2012

A TRAIÇÃO DAS IMADENS


A traição das imagens

Nina Rizzi*

 
Certa vez uma senhora visitou o pintor Matisse em seu ateliê e comentou: “Mas não há dúvida, o braço dessa mulher é comprido demais!” Matisse replicou polidamente: “A senhora está equivocada. Isso não é uma mulher, é uma pintura”.
Uma pintura não tem de ser idêntica ao mundo que vemos. Pode, por exemplo, ser muito mais decorativa.
No caso da imagem acima, A traição das imagens, do pintor belga René Magrite (René François Ghislain Magritte, 1898-1967), o que a imagem nos sugere? O popeye? Seu avô fumando cachimbo de chocolate (e você pode então até mesmo sentir o cheiro)? Uma sensação de deja vù?

 
Qualquer uma das alternativas, nenhuma delas, todas ajuntadas a muitas outras. O fato é que não só a primeira impressão ficará, mas esta e as seguintes serão influenciadas por conhecimentos prévios. Só poderia reconhecer o cachimbo de seu avô caso tenha um avô que fume cachimbos com aroma de chocolate; pensar no popeye, caso tenha o assistido na infância.
Quer dizer, por trás de nossas percepções estão nossas experiências anteriores. Não somos, como pensam alguns, uma caixa vazia a ser preenchida pela educação. Somos sujeitos históricos e essa nossa história pessoal e cultural é determinada pelo tempo/espaço em que estamos inseridos. Assim, no contato com essa obra de arte, ou com qualquer conceito, texto objeto, etc., relacionamos às nossas experiências passadas, ainda que não quiséssemos. Lembrando-se do seu avô ou do desenho, será uma experiência única, que conduzirá a leitura da obra diferente de um indígena, por exemplo, que poderá tomar como referência o ritual do cachimbo da paz.

 
É possível ainda que haja um estranhamento, ora que absurdo, um cachimbo a voar; e que maluco pinta um cachimbo com a inscrição: “isto não é um cachimbo?”, o que seria então? Um navio pronto a colidir com um iceberg? Ou como nos sugere Moacy Cirne:
Como seres racionais, procuramos critérios para compreender o que vemos, assim, tendemos a resistir à arte que não reproduza o “mundo real” e, já que não é um cachimbo vamos adivinhando ou atribuindo outros significados àquela forma que, no entanto, é um cachimbo. 
Magritte nos leva a refletir sobre essa lógica comumente usada e que Matisse também refutou no diálogo com a senhora; cria em sua obra a contradição entre imagem e palavra. Voltemos a olhar a obra de Magritte. É ali mesmo que vamos encontrar os elementos, pistas para o significado da obra. Leitura que, aliás, nos conduzirá à múltiplas interpretações.
Magritte foi o pintor surrealista que mais aprofundou a questão da ambiguidade entre imagem e palavra. Entre 1928-29 e 1966, produziu uma série de obras Isto não é… chamada por ele de A Traição das Imagens.
O filósofo francês Michael Foucault (1926-1984) escreveu Isto não é um cachimbo, livro que discute os enigmas de um dos quadros desta série: Isto não é um cachimbo, que apresenta semelhanças com Os dois Mistérios.

 
Figura 3: René Magritte. Les Deux Mystères, 1966. Óleo sobre tela, 65 x 80 cm.

 
Neste estudo Foucault constata que há dois cachimbos. Um deles se mostra aprisionado com sua legenda na superfície claramente delimitada de um quadro emoldurado Considerando a obra como pintura, as letras são apenas a imagem das letras, eternizadas pela obra de arte. Percebendo a figura como quadro-negro, ela é apenas a continuação didática de um discurso, a lição do mestre que apresenta a imagem e seu enunciado. A caligrafia caprichada do “professor”, entretanto, não confirma o que estamos habituados a ver em muitos quadros-negros e em cartilhas e livros didáticos (que tanto deseducam): “isto é um cachimbo”. Na verdade, como lá no início nos disse Matisse: “isto é o desenho de um cachimbo”. O cavalete, apoiado no chão austero de tábuas largas, tem os pés chanfrados. É visivelmente instável e inquietante, como a própria lição enunciada.
Acima, fora do quadro, sem coordenadas, há um segundo cachimbo. É muito maior que o outro e há incerteza de sua localização: pode estar na frente, mas pode também estar suspenso acima do cavalete como uma emanação, um vapor que teria se desprendido do quadro; ou, ainda, atrás, mais gigantesco, empurrando para uma dimensão interior. Mas, ele próprio, é também um desenho.
Há oposição entre a flutuação não localizada do cachimbo do alto e a situação definida do cachimbo de baixo. É a mesma ambiguidade que há entre a linguagem visual e a escrita. Afirmação e negação, oposição e cumplicidade, dialética. Pensamentos tornados visíveis.
Magritte parece querer discutir a representação na arte, e o fez pela metalinguagem. Ele atualiza a discussão sobre mímese, sobre o modo simbólico do pensar da arte.
Deixemos a palavra, o próprio Magritte (FOUCAULT: 1989):
O famoso cachimbo… Como fui censurado por isso!
E, entretanto… Vocês podem encher de fumo o meu cachimbo?
Não, não é mesmo?
Ele é apenas uma representação
Portanto, se eu tivesse escrito sob meu quadro: “Isto é um cachimbo”, eu teria mentido.


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