segunda-feira, 16 de julho de 2012


Quatro letras: a língua do mundoMirian Celeste Martins
Gisa Picosque
M. Terezinha Telles Guerra
A mina bela de pele lisa
Com quatro letras é a Mona Lisa
Junior Blau


         Antes mesmo de saber escrever, o homem expressou e interpretou o mundo em que vivia pela linguagem da arte.
         A caverna, com sua umidade rochosa, foi o ateliê do homem pré-histórico. Diante dos mistérios do que lhe era desconhecido, o artista retirava-se para ficar a sós na caverna. Por dias e dias, nela habitava, desvendando, pelo fazer das mãos e pela força imaginante, o que não compreendia, mas
sonhava compreender.
         A caverna foi a cada na qual o artista se sentia seguro enquanto criava; pois “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz”, como disse o filósofo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Nela, pelos olhos de seu próprio ser sensível, o artista ia concebendo o seu mundo por imagens.
         Na caverna, enveredando por seus corredores, os primeiros artistas fizeram graffiti usando como suporte as formas das estruturas rochosas. Dissolvendo pigmentos na boca e soprando-os em jatos como se fossem spray, eles pintaram e traço a traço desenharam a expressão dos movimentos de mamutes, bisões e outros animais.

        
Somos seres simbólicos, seres de linguagem
         Mais do que uma reprodução dos animais selvagens reais, os desenhos e pinturas da arte rupestre nos falam da sensibilidade visual e da capacidade de abstração do homem pré-histórico. No fazer criador de projetar imagens, o artista pré-histórico formou imagens que, no dizer de Bachelard, “cantam a realidade”, pois, para este filósofo da criação artística, “a imaginação não é faculdade de formar imagens da realidade; é a faculdade de formar imagens poéticas que expressam a sua percepção daquele mundo orientada por sua imaginação”.
         As imagens retidas nas paredes da caverna revelam um conhecimento que o homem construiu daquele mundo. Para isso, o artista teve de criar, além da realidade imediata um mundo outro, de imagens dos animais selvagens. Neste ato criador, apropriou-se simbolicamente daquele mundo, capturando na representação visual algo que era dos animais selvagens, dando-lhes novos significados em formas simbólicas. Na criação, o artista tornou conhecido e compreensível não só para ele criador da imagem, mas para todos do grupo, que depois a olhavam, o mistério dos animais que caçava e aos quais sua vida estava ligada.
         Esse conhecimento, que é estético, mesmo nos parecendo hoje tão natural, veio muito antes da palavra. As imagens pintadas não se referiam somente ao que era visível naquele mundo, mas também ao invisível como instrumento de magia. Como tal, ofereciam-se à experiência coletiva, como um modo de conhecimento a toda a coletividade, orientando o pensamento e a ação de todos naquele mundo.
         As obras dos artistas pré-históricos manifestam a vocação inventiva do homem e da sua mente criadora para interpretar a realidade, O desejo de compreender e apropriar-se dela leva o homem a tentativas de interpretação pela capacidade mental de
simbolizar.
         Mais do que homo sapiens, o homem é um animal simbólico, como definiu o filósofo alemão Ernst Cassirer (1874-1945). Somos seres simbólicos, e isso faz com que sejamos capazes de inventar e criar símbolos, ordenando e interpretando o mundo por meio de sistemas de representação.
         Cada indivíduo, como um ser simbólico que é, realiza o ato de simbolizar utilizando sistemas de representação para elaborar e objetivar seus pensamentos e sentimentos com o intuito de compreender o que se passa no mundo.
         Como seres simbólicos, nossa autocriação e transformação cultural nos desenvolveram como seres de linguagem. Nós, humanos, somos capazes de conceber e manejar linguagens que nos permitem ordenar o mundo e dar-lhe sentido.
         Desde as pinturas nas cavernas e as palavras do homem primitivo até as fórmulas e equações que levaram o homem moderno a visitar a Lia e hoje navegar na Internet, há um percurso de invenções que o homem efetuou e vem efetuando por meio de sistemas de representação do mundo,
sistemas simbólicos, ou seja, linguagens.

        
Linguagem ou linguagens...
         Quando falamos em
linguagem, logo nos vêm à mente a fala e a escrita. Estamos tão condicionados a pensar que linguagem é tão somente a linguagem verbal, oral ou escrita e, do mesmo modo, que ela é a única forma que usamos para saber, compreender, interpretar e produzir conhecimento no mundo, que fechamos nossos sentidos para outras formas de linguagem que, de modo não-verbal, também expressam, comunicam e produzem conhecimento.
         O que, então, a linguagem? Pode-se dizer que linguagem é um sistema simbólico e toda linguagem é um sistema de signos.
         Somos rodeados por ruidosas linguagens verbais e não-verbais – sistemas de signos – que servem de meio e expressão e comunicação entre nós, humanos, e podem ser percebidas por diversos órgãos dos sentidos, o que nos permite identificar e diferenciar, por exemplo, uma linguagem oral (a fala), uma linguagem gráfica (a escrita, um gráfico), uma linguagem tátil (o sistema de escrita braile, um beijo), uma linguagem auditiva (o apito do guarda ou do juiz de futebol), uma linguagem olfativa (um aroma como o do perfume de alguém querido), uma linguagem gustativa (o gosto apimentado do acarajé baiano ou o gosto doce do creme de cupuaçu) ou as linguagens artísticas. Delas fazem parte a linguagem cênica (o teatro, a dança), a linguagem musical (a música, o canto) e a linguagem visual (o desenho, a pintura, a escultura, a fotografia, o cinema), entre outras.
         Nossa penetração na realidade, portando, é sempre mediada por linguagens, por sistemas simbólicos. O mundo, por sua vez, tem o significado que construímos para ele. Uma construção que se realiza pela representação de objetos, idéias e conceitos que, por meio dos diferentes sistemas simbólicos, diferentes linguagens, a nossa consciência produz.
         Quando nos damos conta disso, vemos que a linguagem é a forma essencial da nossa experiência no mundo e, conseqüentemente, reflete nosso modo de estar-no-mundo. Por isso é que toda linguagem é um sistema de representação pelo qual olhamos, agimos e nos tornamos conscientes da realidade.

B. A partir da leitura, respondam às seguintes questões:

# Por que é possível afirmar que somos “seres de linguagem, seres simbólicos”?

# Quais linguagens o ser humano inventou para expressar e comunicar seus pensamentos, suas emoções, sensações e tantas outras idéias? Expliquem suas respostas.

# De que modo as referências pessoais reduzem ou ampliam a compreensão das linguagens utilizadas por outros seres humanos, em outras épocas, em outros lugares e contextos?

C. Qual tipo de educação estética foi oferecido a vocês por sua família, pela cidade onde vivem, pela escola e pela vida? Escrevam, individualmente, um pequeno texto sobre o tema.

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