domingo, 2 de setembro de 2012

ARTE ROMANICA



ARTE ROMÂNICA
      Esse período foi assim denominado para indicar sua relação com a antiga tradição romana, pois se caracteriza pelo apogeu do poder feudal e da renovação religiosa. O Papa tornou-se detentor de grandes poderes políticos e espirituais, podendo nomear e depor bispos e até reis. A religiosidade, nesse período, passou a ser expressa nas peregrinações e início das cruzadas. A arte refletia o temor a Deus e o respeito à Igreja.
      Nos murais das igrejas, a pintura assumiu caráter religioso com o objetivo de relatar a verdade salvadora. Caracterizou-se como uma forma didática de ensinar a religião, tendo como principal temática a vida dos santos e utilizando-se apenas da esquematização, deixando de lado a preocupação com o realismo e a profundidade. As leis da proporção na representação foram esquecidas e voltou-se para a monumentalidade e a simplificação, procurando-se a síntese.
      Nesse período, a arte da tapeçaria surgiu com a finalidade de isolar o frio e a umidade das paredes. Somente mais tarde ela passou a ser usada no chão. A temática das tapeçarias consistia em motivos geométricos e brasões heráldicos e seu uso foi rapidamente difundido por toda Europa.
      A conhecidíssima Tapeçaria de Bayeux não é exatamente uma tapeçaria, e sim um bordado de lã com suporte de tecido, que por muito tempo se acreditou ter sido feito na Normandia pelas damas da corte da Rainha Matilde, mulher de Guilherme, o Conquistador. Entretanto, recentemente provou-se que foi feita na Inglaterra a pedido do bispo Odo, meio irmão de Guilherme. Essa tapeçaria é composta de um relato anglo-saxão sobre a história da conquista da Inglaterra pelos normandos. Na cena             principal retratada, os irmãos do rei inglês Harold são dizimados por soldados normandos. Acima da cena principal, figuram animais; enquanto na parte de baixo, estão soldados mortos com armas e armaduras abandonadas.
      Na arquitetura, buscou-se a construção de igrejas mais amplas e altas, dando ênfase apenas à construção propriamente dita.
      A escultura passou a compor a arquitetura na forma de capitéis decorados e frisos com o objetivo de ornamento interno e externo.
      Na música, destacaram-se o canto gregoriano (canto religioso, em latim, oriundo do papa Gregório Magno) e o canto profano (canto do povo, trovadoresco, que narrava histórias populares e lendas).

ARTE BIZANTINA


 
ARTE BIZANTINA
      Com a ascensão do cristianismo, os cultos pagãos Greco-romanos entraram em decadência. Surgiu, então, uma nova forma de pensar e, com isso, de se fazer arte. Foi no início da Idade Média, classificado como Período paleocristão, que a linguagem simbólica passou a fazer parte da arte, da ciência e da filosofia.
      O objetivo que a arte assumiu foi o de auxiliar na catequização, por isso passou a ter como característica a simplicidade, possibilitando, assim, um acesso maior ao entendimento das questões religiosas.
      O termo “bizantino” originou-se da cidade de Bizâncio, mais tarde chamada de Constantinopla. Por se localizar em ponto estratégico para o comércio entre o Oriente e o Ocidente, essa cidade teve em sua manifestação artística elementos culturais tanto orientais como ocidentais.
      Carascerísticas
·         Da pintura
- Pintura bidimencional, sem o uso da perspectiva e do volume.
- Temática religiosa ou retratos de imperadores.
- Predomínio do mosaico.
- Alongamento das figuras.
- Emprego das cores azul, vermelha e dourada.
- Ícones – nova forma de expressão artística na pintura.
- Quadros que representavam figuras sagradas, santos e mártires, bastante luxuosos, com ornamentação suntuosa.
- As técnicas utilizadas eram a têmpera e a encáustica.
Encáustica: consiste na diluição dos pigmentos em cera derretida e aquecida no momento da aplicação. Ao contrário da têmpera, cujo efeito é brilhante, a encáustica é semifosca.
·         Da arquitetura
- Uso do arco romano e do arco ogival.
- Temáticas abordando a flora e a fauna.
- Excesso no uso do mármore.

Texto extraído do livro Arte e caminhos: metodologia; ensino fundamental /Cíntia Maria Honório . – Curitiba: Base Editorial,

ARTE PALEOCRISTÃ



ARTE PALEOCRISTÃ
      Inicialmente, o culto cristão era proibido e perseguido pelos romanos, que não permitiam a prática religiosa cristã. Por esse motivo, as primeiras produções artísticas cristãs foram realizadas nas paredes das catacumbas, onde os romanos não poderiam vê-las.
      A arquitetura atingiu seu auge com a construção das catacumbas, que eram galerias ou cemitérios subterrâneos escavados em rochas, lugar de sepultura dos primeiros cristãos. Nas paredes dessas catacumbas, faziam-se cavidades ou lóculos sobrepostos, onde eram depositados os cadáveres.
      As primeiras manifestações pictóricas desse período ocorreram justamente nas paredes das catacumbas.
      Inicialmente, em função das perseguições que sofriam os cristãos, as pinturas se limitavam à representação por meio de símbolos e figuras da cultura pagã, aos quais eram atribuídos novos significados.
      Símbolos conhecidos: a cruz (sacrifício de Cristo); a palma (martírio); a âncora (salvação); a pomba (Espírito Santo ) e o peixe (símbolo preferido dos artistas cristãos, pois as letras da palavra “peixe”, em grego, coincidiam com as iniciais da expressão, “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”).
      Com o objetivo de não permitir a associação com os ídolos pagãos, as estátuas foram banidas das igrejas. Criavam-se apenas estátuas colossais dos imperadores e relevos históricos em monumentos triunfais, além da esfinge.
      Nesse período, a arte não era executada por grandes artistas, mas por homens do povo convertido á nova religião.


Texto extraído do livro Arte e caminhos: metodologia; ensino fundamental /Cíntia Maria Honório . – Curitiba: Base Editorial,

ARTE CRISTÃ



ARTE CRISTÃ
Era uma arte voltada para a fé cristã, iniciou-se no final da Idade Antiga, no século I, estendendo-se pela Idade Média. No princípio, a arte era usada para reforçar a crença religiosa de seus próprios seguidores. Mais tarde, foi utilizada pela Igreja Católica, institucionalizada para catequizar e influenciar seu seguidores, divulgando a crença e seus dogmas á população.
            Nesse longo período histórico, a arte assumiu características estéticas deferentes e subdividiu-se em : arte paleocristã, arte bizantina, arte românica e arte gótica.

Texto extraído do livro Arte e caminhos: metodologia; ensino fundamental /Cíntia Maria Honório . – Curitiba: Base Editorial,

domingo, 5 de agosto de 2012

A TRAIÇÃO DAS IMADENS


A traição das imagens

Nina Rizzi*

 
Certa vez uma senhora visitou o pintor Matisse em seu ateliê e comentou: “Mas não há dúvida, o braço dessa mulher é comprido demais!” Matisse replicou polidamente: “A senhora está equivocada. Isso não é uma mulher, é uma pintura”.
Uma pintura não tem de ser idêntica ao mundo que vemos. Pode, por exemplo, ser muito mais decorativa.
No caso da imagem acima, A traição das imagens, do pintor belga René Magrite (René François Ghislain Magritte, 1898-1967), o que a imagem nos sugere? O popeye? Seu avô fumando cachimbo de chocolate (e você pode então até mesmo sentir o cheiro)? Uma sensação de deja vù?

 
Qualquer uma das alternativas, nenhuma delas, todas ajuntadas a muitas outras. O fato é que não só a primeira impressão ficará, mas esta e as seguintes serão influenciadas por conhecimentos prévios. Só poderia reconhecer o cachimbo de seu avô caso tenha um avô que fume cachimbos com aroma de chocolate; pensar no popeye, caso tenha o assistido na infância.
Quer dizer, por trás de nossas percepções estão nossas experiências anteriores. Não somos, como pensam alguns, uma caixa vazia a ser preenchida pela educação. Somos sujeitos históricos e essa nossa história pessoal e cultural é determinada pelo tempo/espaço em que estamos inseridos. Assim, no contato com essa obra de arte, ou com qualquer conceito, texto objeto, etc., relacionamos às nossas experiências passadas, ainda que não quiséssemos. Lembrando-se do seu avô ou do desenho, será uma experiência única, que conduzirá a leitura da obra diferente de um indígena, por exemplo, que poderá tomar como referência o ritual do cachimbo da paz.

 
É possível ainda que haja um estranhamento, ora que absurdo, um cachimbo a voar; e que maluco pinta um cachimbo com a inscrição: “isto não é um cachimbo?”, o que seria então? Um navio pronto a colidir com um iceberg? Ou como nos sugere Moacy Cirne:
Como seres racionais, procuramos critérios para compreender o que vemos, assim, tendemos a resistir à arte que não reproduza o “mundo real” e, já que não é um cachimbo vamos adivinhando ou atribuindo outros significados àquela forma que, no entanto, é um cachimbo. 
Magritte nos leva a refletir sobre essa lógica comumente usada e que Matisse também refutou no diálogo com a senhora; cria em sua obra a contradição entre imagem e palavra. Voltemos a olhar a obra de Magritte. É ali mesmo que vamos encontrar os elementos, pistas para o significado da obra. Leitura que, aliás, nos conduzirá à múltiplas interpretações.
Magritte foi o pintor surrealista que mais aprofundou a questão da ambiguidade entre imagem e palavra. Entre 1928-29 e 1966, produziu uma série de obras Isto não é… chamada por ele de A Traição das Imagens.
O filósofo francês Michael Foucault (1926-1984) escreveu Isto não é um cachimbo, livro que discute os enigmas de um dos quadros desta série: Isto não é um cachimbo, que apresenta semelhanças com Os dois Mistérios.

 
Figura 3: René Magritte. Les Deux Mystères, 1966. Óleo sobre tela, 65 x 80 cm.

 
Neste estudo Foucault constata que há dois cachimbos. Um deles se mostra aprisionado com sua legenda na superfície claramente delimitada de um quadro emoldurado Considerando a obra como pintura, as letras são apenas a imagem das letras, eternizadas pela obra de arte. Percebendo a figura como quadro-negro, ela é apenas a continuação didática de um discurso, a lição do mestre que apresenta a imagem e seu enunciado. A caligrafia caprichada do “professor”, entretanto, não confirma o que estamos habituados a ver em muitos quadros-negros e em cartilhas e livros didáticos (que tanto deseducam): “isto é um cachimbo”. Na verdade, como lá no início nos disse Matisse: “isto é o desenho de um cachimbo”. O cavalete, apoiado no chão austero de tábuas largas, tem os pés chanfrados. É visivelmente instável e inquietante, como a própria lição enunciada.
Acima, fora do quadro, sem coordenadas, há um segundo cachimbo. É muito maior que o outro e há incerteza de sua localização: pode estar na frente, mas pode também estar suspenso acima do cavalete como uma emanação, um vapor que teria se desprendido do quadro; ou, ainda, atrás, mais gigantesco, empurrando para uma dimensão interior. Mas, ele próprio, é também um desenho.
Há oposição entre a flutuação não localizada do cachimbo do alto e a situação definida do cachimbo de baixo. É a mesma ambiguidade que há entre a linguagem visual e a escrita. Afirmação e negação, oposição e cumplicidade, dialética. Pensamentos tornados visíveis.
Magritte parece querer discutir a representação na arte, e o fez pela metalinguagem. Ele atualiza a discussão sobre mímese, sobre o modo simbólico do pensar da arte.
Deixemos a palavra, o próprio Magritte (FOUCAULT: 1989):
O famoso cachimbo… Como fui censurado por isso!
E, entretanto… Vocês podem encher de fumo o meu cachimbo?
Não, não é mesmo?
Ele é apenas uma representação
Portanto, se eu tivesse escrito sob meu quadro: “Isto é um cachimbo”, eu teria mentido.


segunda-feira, 16 de julho de 2012


. Observem a obra O Pensador, do escultor francês August Rodin, aqui reproduzida.

 
Respondam:

# O que esta imagem significa? Justifiquem.

# Que elementos o autor utilizou para dizer o que pretendia?

# Há diferença entre a imagem desta obra e a imagem de uma pessoa real – um amigo seu, por exemplo – pensando? Expliquem.


B. Agora, leiam o texto* a seguir:

            Olhando a obra de Rodin, você vê à sua frente um homem pensando, o que é referendado pelo próprio nome da obra: O pensador. Porém, o mestre francês
não reproduziu um homem pensando. Por quê?
            Veja o que diz, sobre a força dessa escultura, o poeta tcheco Rainer Maria Rilke: “Ele está sentado, perdido e mudo, pesado de imagens e de pensamentos, e toda a sua força – que é a força de alguém que se move – pensa. Seu corpo inteiro se torna um crânio, e todo o sangue das suas veias, cérebro”.
            Rilke capturou na linguagem da obra o inédito de sua fala: a metáfora do ato mesmo de pensar, que Rodin, de modo único e singular, tornou visível para nós ao esculpir, escolhendo, entre tantos outros possíveis, o gesto e a tensão corporal que eram os mais significativos, como forma simbólica do ato de pensar.
            Na obra O pensador há signos corporais – gesto e postura – que nos lembram alguém pensando. Mas o modo de produção – forma, ritmo, movimento, volume e material – de como esses signos corporais se realizam na obra é que é tornado signo artístico pelo escultor.
            A diferença que se estabelece entre os signos corporais que lemos de alguém sentado à nossa frente e os signos artísticos da obra O pensador é que, na primeira, o gesto e a postura de alguém sentado à nossa frente apenas nos comunicam que há alguém pensando, enquanto na obra a imagem comunica aquilo a que a imagem se refere, o próprio ato de pensar executando-se.

           
Metáfora: criação representacional do signo artístico
            Como toda obra de arte é uma forma sensível que chega a nós pela criação de “formas simbólicas do sentimento humano” (Langer, 1980), a linguagem da arte propõe um diálogo de sensibilidades, uma conversa prazerosa entre nós e as
formas de imaginação e as formas de sentimento que ela nos dá.
            Nessa conversa, os signos artísticos são “apresentações” de metáforas aos nossos sentidos.
            Na letra da música “Metáfora”** (1981), de
Gilberto Gil, por exemplo, pode-se ler a bela exposição sobre a metáfora sendo a própria linguagem poética.

“Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: ‘Lata’
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: ‘Meta’
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha a caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora”

            O objeto artístico é, ele próprio, uma metáfora. E, por isso, se faz imagem que mostra de um modo outro aos nossos sentidos o pensamento/sentimento das coisas, resgatando em nós uma surpresa ao vê-las.
Como intérpretes do objeto artístico – “na lata do poeta tudonada cabe” -, somos impulsionados pela emoção nascida do sentimento estético a traduzir interpretantes – “não se meta a exigir do poeta que determine o conteúdo em sua lata” -, estabelecendo analogias a partir das nossas memórias pessoais e culturais.
            Na leitura do que pode ser a obra, atribuímos a ela um sentido que ressoa significações em nós, “pois ao poeta cabe fazer com que na lata venha a caber o incabível”. Por ser metáfora, a obra não trás uma resposta; mas provoca em nós uma profusão de perguntas que nos faz extrair dela novos, diferentes e mais profundos significados do que o nosso olhar contaminado pelo cotidiano vê sobre nós mesmos, o mundo ou as coisas do mundo.

C. A análise dessas obras, assim como o estudo realizado na atividade anterior, pode ajudá-los a compreender alguma característica da Arte? Justifiquem.

D. Agora, leiam o fragmento do texto*** “Os mercados do México”, da obra Feito à mão, de
Lygia Bojunga.

            Foi numa época de grandes andanças pela América Latina que, uma noite, eu desembarquei na Cidade do México. Tão cansada, que a única coisa que eu queria olhar era uma cama pra dormir.
            Acordei com a manhã adiantada, uma manhã esplêndida de ar fresco, quase frio. Botei meu sapato de bater na rua, peguei o mapa da cidade, e saí naquele alvoroço que eu sempre sinto quando saio pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha. Priorizei uns tantos edifícios públicos que eu queria achar depressa, pra conferir a pintura muralista mexicana, que eu já amava de livro e que, depois dessa primeira viagem ao México, eu ainda passei a amar muito mais.
            No fim de meia dúzia de quarteirões, eu dobrei e guardei o mapa. Tinha sentido uma afinidade no ar e, para mim, quando a gente sente essa sintonia, é bobagem querer manobrar: agora vire à direita, agora segue em frente, lá na esquina pega a esquerda. Acho que afinidade pede a gente se largar; e ir. Nem que seja só pra ver onde é que vai dar.
            Fui indo. Parando. Olhando. Indo de novo. Embarafustando por umas ruinhas que agarravam o meu olho cada vez com mais força, nossa! Que tanto de vida se espalhando ali, quanta gente comendo, morando, trabalhando na rua! Mas era do trabalho que o meu olho não queria mais sair: uma pintava; outro esculpia; outra bordava; um escrevinhador, cercado de gente esperando a vez, ia botando no papel as cartas e os recados que ditavam pra ele; outro tecia; outra trançava; outro moldava e, à medida que ia chegando perto do mercado, mais artesãos se comprimiam na rua, mais as cores explodiam, os cheiros se misturavam, o barulho crescia, era gente, era bicho, era tráfego, era música tocando. Na entrada do pavilhão eu parei, mal podendo acreditar no que via, de tão grandioso que era o visual daquele mercado (e quantos! Quantos outros eu fui investigar depois, tomada que eu logo fiquei pelo fascínio das ‘artesanias’), coberto de cima a baixo por mil panos e chapéus e bordados e pinturas, avizinhados de uma variedade imensa de legumes e frutas e de peixes e de grãos. Era uma amostragem tão imensamente artesanal e colorida de vida pulsando, que o meu olho ficou meio tonto, nem sabendo onde parar, mas, por onde ele passava, a minha mão chegava atrás, doida pra alisar o sisal da bolsa, sentir a lã do tapete, apalpar a tecedura do xale, acarinhar o barro do pote, roçar o ponto do bordado, o trançado do cesto. Era tanto pra sentir, que a minha mão, lá pelas tantas, emudeceu. Feito com medo de sentir mais.


Quatro letras: a língua do mundoMirian Celeste Martins
Gisa Picosque
M. Terezinha Telles Guerra
A mina bela de pele lisa
Com quatro letras é a Mona Lisa
Junior Blau


         Antes mesmo de saber escrever, o homem expressou e interpretou o mundo em que vivia pela linguagem da arte.
         A caverna, com sua umidade rochosa, foi o ateliê do homem pré-histórico. Diante dos mistérios do que lhe era desconhecido, o artista retirava-se para ficar a sós na caverna. Por dias e dias, nela habitava, desvendando, pelo fazer das mãos e pela força imaginante, o que não compreendia, mas
sonhava compreender.
         A caverna foi a cada na qual o artista se sentia seguro enquanto criava; pois “a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz”, como disse o filósofo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Nela, pelos olhos de seu próprio ser sensível, o artista ia concebendo o seu mundo por imagens.
         Na caverna, enveredando por seus corredores, os primeiros artistas fizeram graffiti usando como suporte as formas das estruturas rochosas. Dissolvendo pigmentos na boca e soprando-os em jatos como se fossem spray, eles pintaram e traço a traço desenharam a expressão dos movimentos de mamutes, bisões e outros animais.

        
Somos seres simbólicos, seres de linguagem
         Mais do que uma reprodução dos animais selvagens reais, os desenhos e pinturas da arte rupestre nos falam da sensibilidade visual e da capacidade de abstração do homem pré-histórico. No fazer criador de projetar imagens, o artista pré-histórico formou imagens que, no dizer de Bachelard, “cantam a realidade”, pois, para este filósofo da criação artística, “a imaginação não é faculdade de formar imagens da realidade; é a faculdade de formar imagens poéticas que expressam a sua percepção daquele mundo orientada por sua imaginação”.
         As imagens retidas nas paredes da caverna revelam um conhecimento que o homem construiu daquele mundo. Para isso, o artista teve de criar, além da realidade imediata um mundo outro, de imagens dos animais selvagens. Neste ato criador, apropriou-se simbolicamente daquele mundo, capturando na representação visual algo que era dos animais selvagens, dando-lhes novos significados em formas simbólicas. Na criação, o artista tornou conhecido e compreensível não só para ele criador da imagem, mas para todos do grupo, que depois a olhavam, o mistério dos animais que caçava e aos quais sua vida estava ligada.
         Esse conhecimento, que é estético, mesmo nos parecendo hoje tão natural, veio muito antes da palavra. As imagens pintadas não se referiam somente ao que era visível naquele mundo, mas também ao invisível como instrumento de magia. Como tal, ofereciam-se à experiência coletiva, como um modo de conhecimento a toda a coletividade, orientando o pensamento e a ação de todos naquele mundo.
         As obras dos artistas pré-históricos manifestam a vocação inventiva do homem e da sua mente criadora para interpretar a realidade, O desejo de compreender e apropriar-se dela leva o homem a tentativas de interpretação pela capacidade mental de
simbolizar.
         Mais do que homo sapiens, o homem é um animal simbólico, como definiu o filósofo alemão Ernst Cassirer (1874-1945). Somos seres simbólicos, e isso faz com que sejamos capazes de inventar e criar símbolos, ordenando e interpretando o mundo por meio de sistemas de representação.
         Cada indivíduo, como um ser simbólico que é, realiza o ato de simbolizar utilizando sistemas de representação para elaborar e objetivar seus pensamentos e sentimentos com o intuito de compreender o que se passa no mundo.
         Como seres simbólicos, nossa autocriação e transformação cultural nos desenvolveram como seres de linguagem. Nós, humanos, somos capazes de conceber e manejar linguagens que nos permitem ordenar o mundo e dar-lhe sentido.
         Desde as pinturas nas cavernas e as palavras do homem primitivo até as fórmulas e equações que levaram o homem moderno a visitar a Lia e hoje navegar na Internet, há um percurso de invenções que o homem efetuou e vem efetuando por meio de sistemas de representação do mundo,
sistemas simbólicos, ou seja, linguagens.

        
Linguagem ou linguagens...
         Quando falamos em
linguagem, logo nos vêm à mente a fala e a escrita. Estamos tão condicionados a pensar que linguagem é tão somente a linguagem verbal, oral ou escrita e, do mesmo modo, que ela é a única forma que usamos para saber, compreender, interpretar e produzir conhecimento no mundo, que fechamos nossos sentidos para outras formas de linguagem que, de modo não-verbal, também expressam, comunicam e produzem conhecimento.
         O que, então, a linguagem? Pode-se dizer que linguagem é um sistema simbólico e toda linguagem é um sistema de signos.
         Somos rodeados por ruidosas linguagens verbais e não-verbais – sistemas de signos – que servem de meio e expressão e comunicação entre nós, humanos, e podem ser percebidas por diversos órgãos dos sentidos, o que nos permite identificar e diferenciar, por exemplo, uma linguagem oral (a fala), uma linguagem gráfica (a escrita, um gráfico), uma linguagem tátil (o sistema de escrita braile, um beijo), uma linguagem auditiva (o apito do guarda ou do juiz de futebol), uma linguagem olfativa (um aroma como o do perfume de alguém querido), uma linguagem gustativa (o gosto apimentado do acarajé baiano ou o gosto doce do creme de cupuaçu) ou as linguagens artísticas. Delas fazem parte a linguagem cênica (o teatro, a dança), a linguagem musical (a música, o canto) e a linguagem visual (o desenho, a pintura, a escultura, a fotografia, o cinema), entre outras.
         Nossa penetração na realidade, portando, é sempre mediada por linguagens, por sistemas simbólicos. O mundo, por sua vez, tem o significado que construímos para ele. Uma construção que se realiza pela representação de objetos, idéias e conceitos que, por meio dos diferentes sistemas simbólicos, diferentes linguagens, a nossa consciência produz.
         Quando nos damos conta disso, vemos que a linguagem é a forma essencial da nossa experiência no mundo e, conseqüentemente, reflete nosso modo de estar-no-mundo. Por isso é que toda linguagem é um sistema de representação pelo qual olhamos, agimos e nos tornamos conscientes da realidade.

B. A partir da leitura, respondam às seguintes questões:

# Por que é possível afirmar que somos “seres de linguagem, seres simbólicos”?

# Quais linguagens o ser humano inventou para expressar e comunicar seus pensamentos, suas emoções, sensações e tantas outras idéias? Expliquem suas respostas.

# De que modo as referências pessoais reduzem ou ampliam a compreensão das linguagens utilizadas por outros seres humanos, em outras épocas, em outros lugares e contextos?

C. Qual tipo de educação estética foi oferecido a vocês por sua família, pela cidade onde vivem, pela escola e pela vida? Escrevam, individualmente, um pequeno texto sobre o tema.